segunda-feira, 29 de junho de 2015

Sobre o tempo

Podemos dividir a vida de algumas formas: anos, semanas, minutos, segundos, dias, noites, antes, depois... Mas se olharmos bem todas essas definições são apenas noções de tempo diferentes. Sendo assim, a vida é composta mesmo pelo tempo.

De pouco adianta, entretanto, termos uma vida longa e não utilizarmos bem essa dádiva. Ocorre que o tempo é algo precioso e sem chances de retomadas porque nenhum milésimo de segundo será igual ao outro e é impossível voltar atrás em um minuto passado ou um instante perdido. Logo, é impossível recuperar o tempo porque, fazendo isso, perdemos o momento que existiria para outro acontecimento.

Sempre que paro para pensar nessa efemeridade lembro de Ferris Bueller e sua ótima lição: "A vida passa muito rápido; se você não parar e olhar ao redor, você pode perdê-la ".

A verdade é que a vida ocidental (ou capitalista) está muito voltada para o dinheiro e coisas materiais, sendo que o sucesso muitas vezes vem ligado a estes dois aspectos. Para conseguir ganhar muito dinheiro, se não temos a sorte de nascer em uma família abastada, casar com alguém rico ou ganhar na loteria, teremos que trabalhar (e muito). E esse trabalhar muito faz com que percamos outras coisas importantes que só vemos a real importância depois que não temos mais como voltar atrás e viver aquela experiência.

Obviamente não digo que as pessoas por ai devem parar de trabalhar e viver apenas com a sensação de carpe diem, longe disso. Acho que temos realmente de trabalhar para conseguirmos inclusive aproveitar o dia com coisas que queremos fazer. Porém, precisamos delimitar o expediente e usar bem aquele momento em que estamos efetivamente trabalhando para evitar horas extras desnecessárias, essas sim, que poderiam ser utilizadas para outras vertentes da nossa vida que podem efetivamente ser o que nos realiza.

Ultimamente vejo que gastamos muito tempo com coisas insignificativas ou desimportantes, enquanto perdemos a vida lá fora. Li esses dias uma reportagem em que um rapaz estava em um barco olhando o celular. Enquanto isso, uma baleia jubarte com seu filhote imergiu ao lado do barco, mas ele não viu porque estava concentrado no telefone. Se não vemos nem uma baleia ao nosso lado, imagine os pequenos detalhes?

Então entramos naquela espiral de resgatar o tempo perdido, de mudar o que foi feito. Falando nisso, vejo que um dos grandes vilões que acaba criando essa busca pelo que deixamos de fazer podem ser os “se”s: se eu tivesse ido, se lesse aquele papel, se tivesse dito sim, ou seja, se eu fizesse algo diferente do que fiz. Esses “se’s” atormentam muito a cabeça das pessoas e digo isso de cadeira sendo uma pessoa ansiosa e indecisa.

Existe uma vertente de estudo chamada “teoria do caos” a qual suporta que uma pequena alteração do percurso em um determinado evento pode acarretar consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. Por isso, tais eventos seriam praticamente imprevisíveis - logo, caóticos. Sendo assim, a teoria do caos apresenta que se um pequeno acontecimento em nossa vida fosse alterado, ela poderia ser completamente diferente, assim como a vida de muitas outras pessoas afetadas por tal acontecimento.

Porém, apesar de muitos cálculos matemáticos e bastante teoria, é impossível sabermos realmente o que mudaria em nossa vida caso aquele “se” fosse a realidade: se escolhesse ir para a esquerda ao invés de ir para a direita, se tivesse me declarado para o amor platônico dos meus 13 anos ou se comesse mais legumes desde cedo.

Então pensar no que poderia ser da nossa vida se um ponto específico fosse diferente é, por si só, uma perda de tempo precioso que poderia gerar mais coisas boas, novas oportunidades ou uma grande descoberta. Ao invés disso, pensar no que poderia ter sido, nada mais é que criar ansiedade e (por que não?) uma úlcera.

Quando li Comer, Rezar, Amar, uma frase do Richard do Texas me pegou de jeito. Liz (a personagem principal) e ele conversavam sobre um amor obsessivo dela e quanto aquilo inquietava a mente, ao que ele responde: “Sinto falta dele. Sinta. Depois mande luz e amor toda vez que pensar nele e esqueça”. Esse ensinamento vale o livro inteiro – sentir as perdas, as dores, os amores e pensar no que poderia ter sido é parte da vida, mas não devemos perder nosso tempo voltando sempre no mesmo assunto. “Mande luz e amor toda vez que pensar nele e esqueça!” – essa é a lição!

Freud uma vez disse: “qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa ”? Quando acontecem coisas diferentes do que gostaríamos ou a nossa vida não está boa (ou parte dela), existem diversos aspectos externos que não podemos controlar envolvidos, logo, estes aspectos devem ser observados, mas não devemos gastar nossa energia e tempo tentando mudá-los. Devemos gastar nossas energias mudando o que está em nosso alcance, ou seja, nós mesmos. Como a teoria do caos diz, um pequeno detalhe pode alterar o mundo todo – então por que não começarmos assim, por nós?

Há mais ou menos 2 anos comecei a fazer yoga por recomendações médicas. Desde o começo o professor diz coisas como “as mudanças ocorrem de dentro para fora”. Vejo que realmente aproveitar bem o tempo é encontrar contentamento no que fazemos e realizar nossas tarefas com amor e dedicação. 

O mesmo Richard diz que “esperar o outro te perdoar é uma perda de tempo, perdoe a si mesma”. No fim, a grande lição é essa: não devemos esperar que o mundo nos faça feliz, que as pessoas esperem outras coisas de nós ou que o perdão venha – devemos nós mesmos ser felizes, afinal de contas, o grande Shakespeare tem razão: “Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores ”.

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